Alimentação na Cidade em Tempo de Pandemia. Tendências, Hábitos e Comportamentos.

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Alimentação na Cidade em Tempo de Pandemia. Tendências, Hábitos e Comportamentos.
Jumar da Silva Pedreira
21.05.20
 
Artigo disponível na sua versão mais detalhada em http://mfsp.com.br/noticias/
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O que irá comer, alimentar-se, a cidade em tempo de pandemia é uma pergunta que será respondida ao longo do tempo, não existindo ainda uma resposta concreta. Os efeitos sociais, emocionais e financeiros que estamos vivendo nos diversos tipos de confinamentos, geram mudanças duradouras no nosso comportamento alimentar, e esses efeitos já são suficientes, ou deveriam ser, para que tendências e hábitos alimentares sejam repensados. Vivemos e nos alimentamos em um planeta que passa por um processo inimaginável de adequações do convívio e do relacionamento social, onde a alimentação sempre esteve em um papel protagonista.   
 
Jean-Pierre Poulain afirmou no livro Sociologia da Alimentação, 2006, que 
[...] as profundas transformações da organização da cadeia agroalimentar alargam sua concentração nas empresas de porte cada vez maior, afastando os comedores da origem natural dos produtos alimentares, isolando-os de seu meio ambiental natural e social. Assim, a própria natureza do risco alimentar teria se transformado, na medida da transferência parcial da atividade culinária para a indústria (POULAIN, 2006).
 
Pollain continua muito atual, pois, profundas transformações continuarão na cadeia alimentar, e já estão em formação. Antes da pandemia, observava-se claramente uma busca cada vez maior por produtos orgânicos, como alternativa à carne de origem animal, incluindo insetos como fonte de proteínas, e por compras orientadas à sustentabilidade, mas, com a chegada da pandemia, passamos a conceder uma certa trégua à comida industrial, aos alimentos processados e aos materiais e embalagens plásticos, pois temos a sensação de maior proteção, podemos estocá-los, nos garantindo para uma escassez, que não é descartável na nossa insanidade dos dias de quarentena. Passamos a viver com o medo crescente da comida natural, devido a maior manipulação e ao afastamento obrigatório do nosso meio natural e social, porém, em outro extremo clamamos por maior imunidade, que deveria ser conseguida através de uma comida mais natural, feita em casa, e nesse momento, vivemos uma dualidade dramática que terá reflexo no nosso comportamento alimentar. 
 
Abrimos 2020 com a certeza que iríamos na direção das tendências e comportamentos já estudados em um mundo com livre arbítrio para ir e vir, um mundo que tínhamos total controle, um mundo com cidades abertas onde poderíamos decidir onde comer e o que comer, mas esse mesmo mundo nos empurrou ao confinamento obrigatório, seja físico e/ou emocional, em função do COVID-19. O instituto internacional de pesquisa EUROMONITOR publicou em janeiro as 10 Tendências Globais de Consumo 2020, para um mundo sem pandemia, onde uma das tendências reforçava o estar em casa, de forma confortável, livre e opcional, definida como “Nunca precisaremos sair de casa”, e assim descrito:
 
Durante épocas de incertezas econômicas, políticas ou pessoais, os consumidores são atraídos para os confortos de seus lares. Para relaxar e voltar aos trilhos, os consumidores se isolam em seus espaços pessoais seguros, onde estão livres das distrações do mundo a sua volta. Embora essa tendência não seja nada nova, pela primeira vez os consumidores não querem sair de suas casas e nem precisam. Graças ao acesso à Internet de alta velocidade e serviços e produtos inovadores, os consumidores no mundo todo podem se exercitar, fazer compras, trabalhar e se divertir, tudo isso no conforto de suas Casas multifuncionais. O impacto disso no governo, distribuição e indústrias é profundo e extenso (EUROMONITOR, 2020). 
 
“Nunca precisaremos sair de casa” é uma tendência que reforça uma realidade já vivenciada fazem alguns anos, chegando com mais intensidade a uma parcela da população mundial, e quando pensamos em países como o Brasil, essa parcela tende a ser menor, devido, especialmente, ao desnível socioeconômico da população. Não é essencialmente uma novidade. O livro O Relatório Popcorn, 1991, cunhou o termo “encasulamento” para definir uma tendência de comportamento do consumidor, já observado desde 1986 (“Estamos nos entocando, estamos nos encavernando, estamos nos escondendo debaixo de cobertas [...] estamos em casa” (POPCORN, 1986)), em evidência desde então, com relevância nos hábitos e comportamentos dos consumidores e com forte extensão à alimentação. O “encasulamento”, de acordo com O Relatório Popcorn, é definido 
[...] como o impulso de ir para dentro quando as coisas ficam muito violentas e assustadoras do lado de fora. Cercar-se de uma concha de segurança, de forma que não se fique à mercê de um mundo cruel e imprevisível. Tem a ver com isolamento e evitação, paz e proteção, conforto e controle – uma espécie de super ninho (O RELATÓRIO POPCORN, 1991).
 
A tendência não envelheceu, não datou, nada mais adequado para o momento que estamos vivendo, estando disponível, como já descrito, desde 1986 e trazida pelo EUROMONITOR, de forma visionária, no início de 2020. O que mudou foram os motivos que nos empurraram para o casulo, o conceito se mantém igual, porém, independentemente de classes sociais, todos estão de alguma forma encasulados. 
 
A pandemia é uma crise de saúde pública, que traz sérias consequências sociais e econômicas. Quando se trata da alimentação, a biossegurança é um dos pontos centrais, estando no topo das preocupações dos consumidores para obtenção de produtos confiáveis. Estamos no centro do furacão, não sabemos quais as reais consequências e nossa principal preocupação é a luta pela sobrevivência, mas, já temos claros sinais das tendências e hábitos alimentares, iniciando a se desenhar um novo comportamento dos consumidores, descritos na tabela I, reflexo de um mundo pandêmico. Ressaltamos que evoluiremos durante o ano, pesquisando e observando esses dados mutáveis em função do avanço, estabilização e/ou queda da COVID-19. A potência de cada tendência e os reflexos nos hábitos e comportamentos dos consumidores, também estarão diretamente relacionados ao avanço da ciência no combate ao vírus, assim como, todas as demais tendências, já divulgadas por estudiosos, deverão ser cuidadosamente analisadas considerando-se o cenário do coronavírus. 
 
Na investigação inicial, tendo como referência o início da quarentena na cidade de São Paulo, no dia 24 de março, identificamos nove tendências. A primeira e mais importante, é o QUARENTENADO NO CASULO, que representa quem está confinado em casa. A expressão “quarenteners”, usada por jovens nas redes sociais, busca definir o status na quarentena, no encasulamento. Cozinhar, a (re)descoberta do afeto pela cozinha, faça você mesmo e valorização do alimento industrializado são os principais hábitos que emanam do nosso casulo, onde despertam alguns comportamentos como proteção, segurança, praticidade e medo. Seguimos com ATRAVÉS DAS JANELAS, impulso ao mundo online; SIMPLES ASSIM, menos pode ser mais; VIDA IMUNE, alimentos sustentáveis, saudáveis e promotores de imunidade; FOOD SERVICE IN HOME, o distanciamento da alimentação fora do lar, especialmente em restaurantes, padarias, bares e cafeterias; TRADE DOWN, eliminação e/ou substituição de marcas e produtos, priorizando o essencial; PARA MIM, PARA OS MEUS, indulgência; ENTRE MÃES E MÉDICOS, que representa a dúvida entre a comida materna de casa, e a medicalização da alimentação proclamada por médicos e nutricionistas, e NÃO SOPRE AS VELAS DO BOLO, que representa a potencialização de todo ritual higiênico e sanitário da cadeia alimentar, desde a produção e comercialização, até o preparo e consumo da comida. O inimigo é invisível, mas é possível evitar os meios de transmissão, onde os fluidos nasofaríngeos representam a maior ameaça de contaminação (não irei comer uma fatia do seu bolo de aniversário, provar da sua bebida, lamber seu sorvete, comer com seu garfo [...]).
 
Em detalhes na TABELA I, apresentamos as nove tendências, com os respectivos hábitos e comportamentos dos consumidores, definidos abaixo de acordo o DICIO – Dicionário Online de Português, no cenário do COVID-19. 
 
TENDÊNCIA - Disposição natural que leva algo ou alguém a se mover em direção a outra coisa ou pessoa; evolução de alguma coisa num sentido determinado; direcionamento comum de um grupo determinado.
HÁBITO - Ação que se repete com frequência e regularidade; mania; comportamento que alguém aprende e repete frequentemente; maneira de se comportar; modo regular e usual de ser, de sentir ou de realizar algo; prática repetida que se torna conhecimento ou experiência.
COMPORTAMENTO - Modo de se comportar, de proceder, de agir diante de algo ou alguém; conjunto das atitudes específicas de alguém diante de uma situação, tendo em conta seu ambiente, sociedade, sentimentos etc.; reação que se tem diante de uma situação; conjunto de ações de um indivíduo observáveis objetivamente, tendo em conta seu meio social; estudo sistemático das reações individuais aos estímulos.
       
TABELA I – Tendências, Hábitos e Comportamentos / Cenário COVID-19
 
 
TENDÊNCIA
HÁBITO
COMPORTAMENTO
[i] QUARENTENADO NO CASULO Faça você mesmo; cozinhar; trégua ao alimento industrial e ao plástico proteção; bem-estar; cuidado; afeto; segurança; praticidade; medo
[ii] TENDÊNCIA: ATRAVÉS DAS JANELAS Compras online; streaming e lives (culinários ou não); formatos digitais de relacionamento; banda larga Proteção; prudência; segurança; resiliência; medo
[iii] TENDÊNCIA: SIMPLES ASSIM Fornecedores e abastecimento local e próximo; pequenos produtores; menos pode ser mais; suprimir etapas compaixão; bem-estar; solidariedade; simplicidade; cuidado; afeto; segurança; confiança; empatia; medo
[iv] TENDÊNCIA: VIDA IMUNE Alimentação e suprimentos que reforcem a imunidade e o bom humor (mood food); comida saudável e sustentável (orgânica, biodinâmica, integral, vegana) prevenção; bem-estar; biossegurança; prudência; cuidado; proteção; esperança; medo
[v] TENDÊNCIA: FOOD SERVICE IN HOME Delivery alimentar; afastamento do restaurante a quilo; espaço alimentar readequado; comer fora, mas em casa segurança; distanciamento; precaução; resiliência; cautela; medo
[vi] TENDÊNCIA: TRADE DOWN Adequação do orçamento familiar através da eliminação e/ou troca de marcas e produtos; priorizar o essencial economia, segurança; confiança; cautela; medo
[vii] TENDÊNCIA: PARA MIM, PARA OS MEUS Indulgência; beliscar; mais doce; mais chocolate; álcool para a mão e para a cabeça; fantasia afeto; autopiedade; reconhecimento; fuga; medo
[viii] TENDÊNCIA: ENTRE MÃES E MÉDICOS O equilíbrio entre a comida feita em casa e livre de restrições (liberdade + prazer + sabor) e a medicalização do alimento disseminada por médicos e nutricionista (restrição + imunidade + ciência) dúvida; incerteza; prazer; bem-estar; medo
[ix] TENDÊNCIA: NÃO SOPRE AS VELAS DO BOLO Higiene; lavar as mãos, as compras, os alimentos ...; menos cru, mais cozido prevenção; segurança; cuidado; biossegurança; medo
 
 
O medo, de sabor amargo, nada doce, viriliza-se por todos os comportamentos das tendências, pois é o grande catalisador das rápidas mudanças que já estamos saboreando. De acordo com o epidemiologista Marcel Salathé, “o medo não é o problema, mas, sim, como nós canalizamos nosso medo. O medo nos dá energia para lidar com os perigos agora, e se preparar para os perigos mais à frente” (O QUE VEM PELA FRENTE? COVID-19, FUTUROS EXPLICADOS COM SIMULAÇÕES INTERATIVAS). Uma das energias canalizadas do medo é o hábito de cozinhar, presente na tendência “Quarentenado no Casulo”, porém latente em todas as demais tendências. Um hábito (re)conquistado na quarentena, que (re)conecta consumidores confinados as suas origens ancestrais, (re)descobre o amor e o afeto pela cozinha, acalma, passa tempo e promove união e esperança no casulo, mesmo quando a comida é feita apenas para um.
 
Se “nosso contato mais íntimo com o meio ambiente natural ocorre quando comemos” (ARMESTO, 2004), se “cozinhar é o ato com o qual a cultura surge” (LEVI-STRAUSS), se “a alimentação tem uma função estruturante da organização social de um grupo humano” (POULAIN, 2006) e se “cozinhar é, como diz antropólogos, uma atividade que nos define enquanto seres humanos” (POLLAN, 2009), então, tudo que já temos de tendências e tudo que irá passar a existir, quando se trata da alimentação, com ou sem pandemias, sempre finalizará no ato de cozinhar, seja de forma doméstica, no casulo, ou terceirizada na indústria de alimentos e no food service.
 
Todo esse processo pelo qual estamos passando irá nos tornar mais fortes, pois haverá avanços das ciências e grandes aprendizados, mesmo com as cicatrizes que marcarão nossa geração e o alto custo, humano e financeiro, que já estamos pagando. Muitos acreditam que crises propiciam reflexões e redefinições, portanto, esse é um bom momento para o ser humano continuar repensando a cadeia global de alimentos e sua necessária sustentabilidade. Temos, entretanto, uma certeza: nossas cozinhas, domésticas ou industriais, não serão abandonadas, pois, continuaremos seres humanos, talvez melhores.
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